O problema que a FIA não consegue resolver (parte 1)

terça-feira, 22 de outubro de 2024 às 16:34

Limites de pista F1

Os problemas e a inconsistência da FIA sobre limites de pista – que ela mesmo inventou – ofuscaram a vitória com dobradinha da Ferrari no GP dos EUA de 2024 e podem impactar a F1 do México neste fim de semana também. Veja por que as punições para Lando Norris, George Russell e outros se mostraram tão controversas

A pista de F1 da Cidade do México tem uma longa reta, uma zona de forte frenagem e uma área de escape asfaltada. Em outras palavras, um convite para haver problemas sobre limites de pista novamente.

Após anos de decisões cinzentas dos comissários e punições impopulares que decidem corridas, a questão dos limites de pista ainda ofusca os GPs, com Lando Norris perdendo seu lugar no pódio em Austin no último fim de semana e praticamente adeus ao campeonato de pilotos deste ano.

Enquanto a maioria dos fãs debatem os méritos da punição, muitos outros se veem perplexos com uma série de decisões inconsistentes no GP dos EUA.

Alguns pilotos passaram pelos rivais e saíram da pista sem consequências; outros fizeram movimentos semelhantes e foram penalizados. Então veio a manobra principal quando Max Verstappen defendeu seu P3 – depois de interpretações de alguns no paddock de ele já ter sido ultrapassado na reta – com sua já “manjada” manobra sobre Lando Norris. Quando Norris colocou ao lado na reta final e tentou fazer a ultrapassagem ficando do lado de fora da Curva 12, Verstappen o cortou — fazendo a curva rápido demais e obviamente não conseguindo se manter dentro da pista fazendo ambos os carros saírem do circuito.

Norris já havia ultrapassado Verstappen?

O impulso extra de Norris o colocou de volta na pista à frente de Verstappen e os rádios da equipe imediatamente entraram em ação: o piloto da Red Bull argumentou que Norris deveria devolver a posição; Norris disse que ele foi forçado a sair da pista, e sua equipe disse a ele que ele estava à frente no ápice da curva — e, portanto, poderia permanecer na posição.

Na 56ª e última volta da corrida, os comissários deram seu veredito: Norris receberia uma punição de cinco segundos por “sair da pista e ganhar uma vantagem duradoura”. Ao terminar 4,1 segundos à frente de Verstappen, o piloto da McLaren ficou atrás do atual campeão mundial na classificação final.

Jenson Button liderou os apelos por regras que façam sentido, embora haja poucos sinais de que algo mudará antes do GP do México deste fim de semana. No entanto, alguns proprietários de circuitos acreditam ter uma solução que impediria que os pilotos saíssem da pista em primeiro lugar.

O que as regras dizem

Os comissários avaliam potenciais infrações de corrida em relação às diretrizes de padrões de direção, elaboradas pelo órgão regulador das corridas, a FIA. Elas foram emitidas no início de 2022, após várias controvérsias sobre limites de pista no ano anterior, para dar aos pilotos uma ideia melhor do tipo de manobra que — ou não — incorreria em uma punição. No entanto, elas não são regras rígidas, até porque cada situação é única.

A seção que aborda a ultrapassagem por fora afirma que os carros que estão sendo ultrapassados devem deixar espaço para o carro que está ultrapassando se este estiver à frente no ápice da curva (o ponto onde os carros estão mais próximos da zebra de dentro):

“Para que um carro que está sendo ultrapassado seja obrigado a dar espaço suficiente para um carro que está ultrapassando, o carro que está ultrapassando precisa ter uma porção significativa do carro ao lado do carro que está sendo ultrapassado… Ao considerar o que é uma ‘porção significativa’, para uma ultrapassagem do lado de fora de uma curva, entre os vários fatores que serão analisados pelos comissários ao exercerem seu critério, os comissários considerarão se o carro que está ultrapassando está à frente do outro carro do ápice da curva.”

Com base nisso, os comissários não consideraram que Verstappen já tinha sido ultrapassado no final da reta, portanto não tinha obrigação de deixar espaço para Norris, já que a Red Bull estava à frente da McLaren no ápice.

No entanto, as diretrizes de direção têm mais a dizer em dois segmentos projetados para garantir que uma manobra imprudente não seja recompensada. Primeiro, para pilotos que buscam ultrapassar um carro à frente:

“A manobra de ultrapassagem deve ser feita de forma segura e controlada, permitindo que o carro permaneça claramente dentro dos limites da pista.”

Uma segunda frase impõe uma exigência semelhante ao piloto da frente:

“O carro que está sendo ultrapassado deve ser capaz de fazer a curva enquanto permanece dentro dos limites da pista.”

No incidente de Verstappen e Norris, ambos os carros saíram da pista; Norris só saiu da pista porque foi empurrado por Verstappen.

Há mais uma área das diretrizes de manobra que se aplica ao incidente Verstappen/Norris, que cita os regulamentos esportivos da F1. Eles afirmam que os pilotos não devem obter uma vantagem duradoura ao sair da pista. Se o fizerem, mas depois devolverem a vantagem (devolvendo uma posição, por exemplo), o diretor da corrida não poderá tomar nenhuma outra ação.

O que os comissários disseram

O veredito dos comissários, que foi divulgado uma hora após o final da corrida, afirma que Norris não cumpriu o primeiro critério e, portanto, não havia nenhuma exigência para Verstappen dar espaço na saída da curva.

“O carro 4 [Norris] estava ultrapassando o carro 1 [Verstappen] por fora, mas não estava nivelado com o carro 1 no ápice”, escreveram os comissários. “Portanto, sob as diretrizes dos padrões de direção, o carro 4 perdeu o ‘direito’ de fazer a curva.

“Consequentemente, como o carro 4 saiu da pista e retornou à frente do carro 1, é considerado um caso de sair da pista e ganhar uma vantagem duradoura.”

“Uma penalidade de 5 segundos é imposta em vez da penalidade de 10 segundos recomendada nas diretrizes porque, tendo se comprometido com a ultrapassagem por fora, o piloto do carro 4 tinha pouca alternativa a não ser deixar a pista devido à proximidade com o carro 1, que também havia saído da pista.”

“Em vista do exposto, determinamos que isso não conta como uma ‘saída’ de limite de pista para o carro 4.”

Embora os comissários tenham notado que Verstappen havia saído da pista, eles deram mais peso a Norris estar atrás de Verstappen no ápice julgando que o piloto da McLaren estava errado.

É esse julgamento que confundiu jornalistas e espectadores da F1, de Brundle a vários comentaristas nas redes sociais, perguntando por que a diretriz que afirma que “o carro que está sendo ultrapassado deve ser capaz de fazer a curva enquanto permanece dentro dos limites da pista” foi ignorada.

As repercussões puderam ser sentidas rapidamente, com o México também apresentando uma longa reta, com uma curva fechada e saída de pista onde os carros podem ganhar vantagem — oferecendo benefícios a qualquer piloto que imite a manobra defensiva de Verstappen.

O atual campeão estava à frente de Norris no ápice da curva 12 do COTA porque ele carregou mais velocidade exatamente naquele ponto. Mas, ao carregar mais velocidade, ele não conseguiu fazer a curva se mantendo nos limites de pista, como manda a regra acima.

Está longe de ser a primeira vez que Verstappen adota esse tipo de manobra. Em sua acirrada batalha pelo título com Lewis Hamilton em 2021, ele empregou uma defesa virtualmente idêntica no Brasil, saindo da pista e enviando a Mercedes ainda mais para fora, enquanto Hamilton tentava assumir a liderança da corrida por fora. Os comissários não tomaram nenhuma atitude, mas Hamilton — que havia disparado pelo grid após largar em P10 — conseguiu ultrapassar algumas voltas depois.

Houve um incidente semelhante no início da temporada na Curva 1 na Arábia Saudita, mas Verstappen foi penalizado nesta ocasião após não devolver a posição prontamente — um dos exemplos de aparente inconsistência na forma como as regras são aplicadas.

Três temporadas depois, Norris está ecoando as mesmas reclamações: “Verstappen também saiu da pista”, disse ele à Sky Sports F1. “Então, se ele saiu da pista, claramente ele entrou com mais velocidade do que poderia e também ganhou uma vantagem duradoura ao fazer o que fez. Ele se defende por fora da pista. Ele ultrapassa por fora da pista.”

Não é de surpreender que o chefe da equipe McLaren, Andrea Stella, tenha feito um comentário semelhante: “Minha opinião é que a maneira como os comissários interferiram nessa bela corrida foi inapropriada porque ambos os carros saíram da pista. Ambos os carros ganharam vantagem. Ambos os carros saíram da pista.”

Controversamente, também não foi a primeira vez que o holandês fez tal movimento — sem consequências — na mesma corrida.

Na parte 2 dessa matéria você vai ver todas as inconsistências da decisões dos comissários no GP dos EUA.

AS - www.autoracing.com.br

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