David Coulthard: A F1 nunca vai eliminar seu perigo inerente
domingo, 19 de julho de 2015 às 14:54
David Coulthard
Coluna de David Coulthard para a BBC. Tradução de Adauto Silva
Ao longo das duas últimas décadas, a F1 se acostumou a ver os pilotos saírem ilesos de grandes acidentes, como o de Robert Kubica no Canadá em 2007 ou o looping de Mark Webber em Valência em 2010.
Isso é prova do trabalho feito para melhorar a segurança na sequência dos acontecimentos terríveis do GP de San Marino de 1994, quando Ayrton Senna e Roland Ratzenberger morreram em dois acidentes separados e outros três incidentes graves fizeram com que todos os envolvidos se mexessem.
As lições daquele fim de semana em Imola nunca foram perdidas por aqueles em posições de influência na F1.
Quaisquer incidentes como aqueles inevitavelmente levam a um período de introspecção, e outras mudanças foram feitas como resultado da perda trágica de Bianchi.
Como a F1 reagiu ao acidente de Bianchi
De muitas maneiras, o que aconteceu com Bianchi pode ser descrito como uma ‘aberração’ de acidente. As chances contra ele escapar em um setor da pista coberto por bandeiras amarelas duplas sendo agitadas – a forma mais extrema de cautela antes de uma paralisação de corrida – e bater num guindaste eram enormes.
Todos os procedimentos corretos foram seguidos na hora, mas Bianchi, no entanto, perdeu o controle do carro e saiu da pista.
Houve até mesmo circunstâncias mais incomuns no acidente mais grave desde Senna e antes de Bianchi, quando Felipe Massa sofreu uma fratura no crânio quando foi atingido no capacete por uma parte de suspensão que se soltou do carro que ia na frente na Hungria em 2009.
Em ambos os casos, porém, lições foram aprendidas.
Capacetes foram redesenhados e fortalecidos como consequência de acidente de Massa.
E na sequência do acidente de Bianchi, duas mudanças importantes foram feitas por razões de segurança. Uma delas foi a adição de reforço extra em torno do cockpit. A outra foi a introdução de um sistema chamado “carro de segurança virtual” sob certas circunstâncias em corridas.
O carro de segurança virtual tira dos pilotos a decisão de quanto devem desacelerar para ficarem seguros em determinadas circunstâncias. Quando ele é implantado, o que normalmente seria exatamente a situação no Japão no ano passado, os pilotos têm que diminuir até um tempo ‘delta’ estabelecido no painel do carro.
Isso significa que as chances que um acidente semelhante aconteça novamente são ainda menores do que eram antes. Ainda assim, porém, o perigo não pode ser completamente removido – mesmo a velocidade de 80 kph é potencialmente rápida o suficiente para um carro de F1 aquaplanar e ir para fora da pista.
O perigo é insolúvel
Claramente, o maior risco para a segurança de um piloto de F1 é a cabeça exposta e tem havido muito debate sobre o fato dos carros serem abertos, e os perigos que isso cria.
Muitas mudanças foram feitas nos últimos anos para proteger as cabeças dos pilotos, e o corpo diretivo da FIA continua a pesquisar ainda mais o tema.
Existem outras formas de automobilismo, onde a cabeça do piloto é coberta, mas a F1 é o auge em termos de velocidade e desafio e é aí que aqueles que têm capacidade e oportunidade sempre vão querer estar.
Por que os pilotos querem
As pessoas não envolvidas no automobilismo tem sempre a ilusão de que o que os pilotos estão fazendo não é perigoso.
Apesar da F1 não ter tido um acidente fatal entre as mortes de Senna e Bianchi, houve vários pilotos mortos em acidentes nas outras categorias.
O perigo é uma parte inerente da vida, e dependendo de suas escolhas de vida, você coloca-se mais ou menos em risco.
Todos que entram em um carro de corrida sabem que o que eles estão fazendo pode colocar sua vida em risco, mas eles ainda optam por fazê-lo por causa do retorno que isso traz.
Eu tive a minha oportunidade na F1 por causa da morte de Senna. Eu o substituí na Williams e nunca esqueci isso. Mas, do meu ponto de vista, eu era capaz através de meus próprios incidentes e acidentes, de compartimentar os diferentes aspectos do trabalho.
Para mim, a alegria e o prazer de competir e de ser parte de uma equipe superavam os riscos potenciais do que poderia acontecer. E eu suspeito que é assim que 99% da população mundial vive a vida.
Nós todos sabemos que vamos morrer um dia, mas nós não olhamos para cada passo que tomamos por medo de cair num buraco que poderia estar prestes a abrir.
Automobilismo é perigoso – está escrito no bilhete de admissão
O risco do automobilismo é grande o suficiente para que algumas pessoas sempre coloquem-se em risco ao participarem – e isso não é apenas para os pilotos.
Qualquer um que esteja envolvido no funcionamento de uma corrida de automóveis coloca-se potencialmente em perigo. Durante meu tempo na F1, dois comissários foram mortos. Apesar de estarem atrás de barreiras em locais designados como “seguros”, eles ainda foram atingidos por estilhaços.
O mesmo vale para os espectadores. Todo o possível é feito para protegê-los, mas há sempre a chance de que algo possa acontecer.
Quando carros estão correndo a mais de 300 kph, não é possível mitigar todos os riscos.
Quando você compra um bilhete para assistir uma corrida, “automobilismo é perigoso” está escrito nele por uma razão. A mesma frase é está nos bilhetes para o paddock e para quem trabalha na F1.
Mas não é por causa disso que ninguém faz nada sobre isso. Aqueles em posições de responsabilidade no esporte têm sensatez e continuamente procuram soluções para reduzir os riscos.
O conceito de segurança é executado através das regras que regem os carros, que nem sequer são autorizados a ir à pista sem antes passar por testes de impacto rigorosos.
Hoje em dia todos os envolvidos no esporte tem que pensar assim – de uma maneira que não poderiam fazer há 30 anos ou mais.
E por mais que os engenheiros criem os carros com foco no desempenho, eu não conheço um único que algum dia tenha comprometido a segurança do piloto em busca de velocidade extra.
A contradição inerente da F1
F1 é forçar os limites da capacidade humana. Isso é uma grande parte de seu apelo a milhões de pessoas ao redor do mundo.
Algumas pessoas são simplesmente dessa forma, são competitivas, forçam além de onde a maioria dos outros iriam.
Outros assistem por uma miríade de razões. Porque corridas são emocionantes, ou porque admiram o que as pessoas envolvidas estão fazendo e entendem o que isso significa e – vamos aceitar – porque eles sabem o que está em jogo.
Na F1 há um entendimento absoluto da importância da segurança, desde o supremo do esporte Bernie Ecclestone para baixo.
Nos 21 anos que estou envolvido no automobilismo, a segurança melhorou consideravelmente – a tal ponto que as pessoas já estão se perguntando se o esporte tem sido tão higienizado, que a percepção do perigo tenha sido reduzida demais.
Como o acidente de Bianchi provou, o perigo ainda está muito presente.
Aconteceu em uma das pistas de corrida mais antigas, nas circunstâncias mais difíceis – o tempo chuvoso, a luz desvanecendo-se, em uma curva muito exigente e com ponto cego.
Há menos risco de que isso aconteça nas pistas mais novas e planas, com vastas áreas de escape. Mas, sem dúvida, os pilotos diriam que há menos prazer em guiar nessas pistas do que em Suzuka. E isso não é porque eles pensam por um minuto que a possibilidade de morte deve ser parte do desafio.
É porque as consequências de um erro são muito maiores. Em vez de correr pela área de escape e voltar à pista, eles podem danificar o carro, até ter um acidente. E mesmo se você sair ‘ileso’ de um acidente, acredite em mim, todos eles machucam os pilotos.
É a diferença entre apostar 50 ou 50.000 numa roleta.
Quanto maior for a concorrência, quanto maior o desafio, maior a satisfação.
É aí que reside o conflito fundamental – e o apelo – no coração da F1.
David Coulthard BBC, David Coulthard f1, morte de ayrton senna, morte de jules bianchi, perigos da F1, Tradução Adauto Silva
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